24 de ago de 2012

O pingo do i

 
Para se diferenciar do "u". Segundo Duarte (2003, pág. 49), o pingo no "i" foi instituiído para diferenciar a sequência de dois "i" (o "ii", muito frequente em latim) do "u" minúsculo, com o qual ela se confundia muito no alfabeto gótico adaptado muito em voga no final da Idade Média. Na verdade, o til, o apóstrofo e vários outros sinais foram propostos para evitar a confusão entre "ii" e "u" até que se definisse, no século XVI, pelo acréscimo de um ponto à vogal "i". A partir de então, passamos a pôr os pingos nos "i" e a colaborar para o sucesso da Grafologia, uma técnica de reputação muito controvertida que parte do pressuposto de que há uma relação direta entre grafia e personalidade.
A ausência do pingo sobre o "i", por exemplo, é interpretada como sinal de "distração" ou de "mente ausente" nos exames grafológicos tradicionais. Por outro lado, os que colocamos o pingo muito acima do "i" - sim, faço parte desta confraria - somos considerados "imaginativos". E se você é daqueles que fazem o pingo como um círculo, de duas uma: ou você tem uma "personalidade artística" (seja lá o que isso signifique...), ou é muito afetado e pretensioso. Será?
Para saber mais:
DUARTE, M. O guia dos curiosos: língua portuguesa. São Paulo: Editora Panda, 2003.

22 de ago de 2012

Previsões para as Olimpíadas no Rio


ALGUÉM DUVIDA???
José Simão é considerado o jornalista mais louco da imprensa brasileira, mas o que ele escreveu sobre as Olimpíadas a serem realizadas aqui em Tupiniquim é incontestável e, lamentavelmente, divertido.
 Com vocês, o 'ORÁCULO' JOSÉ SIMÃO!!!!
Previsões de Pai JOSÉ SIMÃO para as Olimpíadas no Rio - 2016
  
De 2011 a 2015
1. ONGs vão pipocar dizendo que apóiam o esporte, tiram crianças das ruas e as afastam das drogas. Após as olimpíadas estas ONGs desaparecerão e serão investigadas por desvio de dinheiro público. Ninguém será preso ou indiciado.
2. Um grupo de funk vai fazer sucesso com uma música que diz: Vou pegar na tua tocha pra você pôr na minha pira.
3. Uma escola de samba vai homenagear os jogos, rimando “Barão de Coubertin” com “sol da manhã”. Gilberto Gil virá no último carro alegórico vestido de lamê dourado representando o “espírito olímpico do carioca visitando a corte do Olimpo num dia de sol ao raiar do fogo da vitória ”.
4. Haverá um concurso para nomear a mascote dos jogos que será um desenho misturando um índio, o sol do Rio, o Pão de Açúcar e o carnaval, criado por Hans Donner. Os finalistas terão nomes como : “Zé do Olimpo”, “ Chico Tochinha” e “Kaíque Maratoninha”.
5. Luciano Huck vai eleger a Musa dos jogos, concurso que durará um ano e elegerá uma modelo chamada Kathy Mileine Suellen da Silva.
  
Abertura dos jogos
1. A tocha olímpica será roubada ao passar pela baixada fluminense. O COB vai encomendar outra com urgência para um carnavalesco da Beija-flor.
2. Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e a bateria da Mangueira farão um show na praia de Copacabana para comemorar a chegada do fogo olímpico ao Rio. Por motivo de segurança, Zeca Pagodinho será impedido de ficar a menos de 500 metros da tocha.
3. Durante o percurso da tocha, os brasileiros vão invadir a rua e correr ao lado dela carregando cartolinas cor de rosa onde se lê GALVÃO FILMA NÓIS, 100% FAVELA DO RATO MOLHADO.
4. Pelé vai errar o nome do presidente do COI, discursar em um inglês de merda elogiando o povo carioca e, ao final, vai tropeçar no carpete que foi colado 15 minutos antes do início da cerimônia.
5. Claudia Leite e Ivete Sangalo vão cantar o “Hino das Olimpíadas” composto por Latino e MC Medalha. As duas vão duelar durante a música para ver quem aparece mais na TV.
6. O Hino Nacional Brasileiro será entoado a capella por uma arrependida Vanuza, que jura que "não bota uma gota de álcool na boca desde a última copa". A platéia vai errar a letra, em homenagem a ela, chorar como se entendesse o que está cantando, e aplaudir no final como se fosse um gol.
7. Uma brasileira vai ser filmada várias vezes com um top amarelo, um shortinho verde e a bandeira dos jogos pintada na cara. Ela posará para a Playboy sem o top e sem o shortinho e com a bandeira pintada na bunda.
8. Por falta de gás na última hora, já que a cerimônia só foi ensaiada durante a madrugada, a pira não vai funcionar. Zeca Pagodinho será o substituto temporário já que a Brahma é um dos patrocinadores. Em entrevista ao Fantástico ele dirá que não se lembra direito do fato.
9. Setenta e quatro passistas de fio-dental vão iniciar a cerimônia mostrando o legado cultural do Rio ao mundo: a bala perdida, o tráfico, o funk, o sequestro relâmpago e a favela.
10. Durante os jogos de tênis a plateia brasileira vai vaiar os jogadores argentinos obrigando o árbitro a pedir silêncio 774 vezes. Como ele pedirá em inglês ninguém vai entender e vão continuar vaiando. Galvão Bueno vai dizer que vaiar é bom, mas vaiar os argentinos é melhor ainda. Oscar concordará e depois pedirá desculpas chorando no programa do Gugu.
11. Um simpático cachorro vira-lata furará o esquema de segurança invadindo o desfile da delegação jamaicana. Será carregado por um dos atletas e permanecerá no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia. Será motivo de 200 reportagens, apelidado de Marley, e será adotado por uma modelo emergente que ficará com dó do pobre animalzinho e dirá que ele é gente como a gente.
12. Adriane Galisteu posará para a capa de CARAS ao lado do grande amor da sua vida, um executivo do COB.
13. Os pombos soltos durante a cerimônia serão alvejados por tiros disparados por uma favela próxima e vendidos assados na saída do Maracanã por “dois real”.
  
Durante os jogos
1. Caetano Veloso dará entrevista dizendo que o Rio é lindo, a cerimônia de abertura foi linda e que aquele negão da camiseta 74 da seleção americana de basquete é mais lindo ainda.
2. Uma modelo-manequim-piranha-atriz-exBBB vai engravidar de um jogador de hóquei americano. Sua mãe vai dar entrevista na Luciana Gimenez dizendo que sua filha era virgem até ontem, apesar de ter namorado 74 homens nos últimos seis meses, e que o atleta americano a seduziu com falsas promessas de vida boa nos EUA. Após o nascimento do bebê ela posará nua e terá um programa de fofocas numa rede de TV.
3. No primeiro dia os EUA, a China e o Canadá já somarão 74 medalhas de ouro, 82 de prata e 4 de bronze. Os jornalistas brasileiros vão dizer a cada segundo que o Brasil é esperança de medalha em 200 modalidades e certeza de medalha em outras 64.
4. Faltando 3 dias para o fim dos jogos, o Brasil terá 3 medalhas de bronze e 1 de ouro, esta ganha por atletas desconhecidos no esporte “caiaque em dupla”. Eles vão ser idolatrados por 15 minutos (somando todas as emissoras abertas e a cabo) como exemplos de força e determinação. A Hebe vai dizer que eles são “uma gracinha” ao posarem mordendo a medalha, e nunca mais se ouvirá deles.
5. A seleção brasileira de futebol comandada por Ronaldinho vai chegar como favorita. Passará fácil pela primeira fase e entrará de salto alto na fase final, perdendo para a seleção de Sumatra.
6. A seleção americana de vôlei visitará uma escola patrocinada pelo Criança Esperança. Três meninos vão ganhar uma bola e um uniforme completo dos jogadores, sendo roubados e deixados pelados no dia seguinte.
7. Os traficantes da Rocinha vão roubar aquele pó branco que os ginastas passam na mão. Um atleta cubano será encontrado morto numa boate do Baixo Leblon depois de cheirá-lo. O COB, a fim de não atrasar as competições de ginástica, vai substituir o tal pó pelo cimento estocado nos fundos do ginásio inacabado.
8. Um atleta brasileiro nunca visto antes terminará em 57º lugar na sua modalidade e roubará a cena ao levantar a camiseta mostrando outra frase onde se lê: JARDIM MATILDE NA VEIA.
9. Vários atletas brasileiros apontados como promessa de medalha serão eliminados logo no início da competição. Suas provas serão reprisadas em 'slow motion' e 400 horas de programas de debate esportivo vão analisar os motivos das suas falhas.
Após os jogos
1. Um boxeador brasileiro negro de 1,85m estrelará um filme pornô para pagar as despesas que teve para estar nos jogos e por não obter patrocínio.
2. Faustão entrevistará os atletas brasileiros que não ganharam medalhas. Não os deixará pronunciar uma palavra sequer, mas dirá que esses caras são exemplos no profissional tanto quanto no pessoal, amigos dos amigos, e outras besteiras.
3. No início do ano seguinte, vários bebês de olhos azuis virão ao mundo e as filas para embarque nos vôos para a Itália, Portugal e Alemanha serão intermináveis, com mães "ofendidas", segurando seus rebentos...

7 de ago de 2012

O Ócio Criativo


  • A sociedade industrial permitiu que milhões de pessoas agissem somente com o corpo, mas não lhes deixou a liberdade para expressar-se com a mente.
  • Na realidade, a sociedade industrial não só fez com que, para muitos, se tornasse inútil o cérebro como também fez com que somente algumas partes do corpo fossem utilizadas. Isto era diferente da sociedade rural na qual o camponês, para usar a enxada ou a pá, assim como o pescador para pescar, além de utilizar o corpo inteiro, usava talvez um pouco mais o cérebro.
  • Mais ou menos na metade do século XVIII nasce um novo movimento, o racionalismo, que confia na razão humana para a solução dos problemas, em contraposição a soluções através de um enfoque emotivo, religioso ou fatalista.
  • Nasce daquela mistura de cientificismo, racionalismo, ironia e auto-ironia que fez do séc. XVIII o “século das luzes”.
  • Indispensáveis a esta revolução serão as descobertas da eletricidade, da máquina a vapor e da organização taylorista, mas também a primazia da razão. O homem descobre que grande parte dos problemas tradicionalmente resolvidos de modo religioso ou fatalista podem, ao contrário, ser administrado racionalmente: seja o medo do temporal e do raio, seja a carestia, seja a ditadura.
  • A consciência de que foi toda sociedade que mudou só aflora, aqui e acolá, em torno de 1850. É então que se começa a falar não mais somente de indústrias, mas de “sociedade industrial”, e percebe-se a globalidade da mudança de época que acabou de acontecer.
  • A sociedade pós-industrial oferece uma nova liberdade: depois do corpo, liberta a alma.
  • Na sociedade industrial, o poder dependia da posse dos meios de produção (fábricas). Na sociedade pós-industrial, o poder depende da posse dos meios de ideação (laboratórios) e de informação (comunicação de massa).
  • Foi a indústria que separou o lar do trabalho, a vida das mulheres da vida dos homens, o cansaço da diversão. Foi com o advento da indústria que o trabalho assumiu uma importância desproporcionada, tornando-se a categoria dominante na vida humana, em relação à qual qualquer outra coisa – família, estudo, tempo livre - permaneceu subordinada.
  • Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo.” (Pensamento Zen)
  • Portanto, toda organização, grande ou pequena, tende a ser conservadora, sofre de compulsão a repetição. Os otimistas veem nesse processo uma manifestação da learning organization. Eu vejo uma resistência às mudanças.
  • Estamos mais habituados a assistir a uma passeata dos trabalhadores do que a uma passeata de senhores bem de vida ou de empresários.
  • A maior exploração ainda diz respeito à matéria-prima. Quando a matéria-prima era o cobre, explorar significava compra-lo a baixo custo. Se é o trabalho, significa pagar pouco pelos braços que se compram. Se são ideias significa se apropriar dos frutos da criatividade dos outros ou ainda impedir que eles amadureçam.[...] É o que fazem, predominantemente, as empresas: mantém milhões de pessoas num regime de baixo nível das ideias, utilizam só as suas capacidades executivas, fazendo com que se envolvam de uma tal maneira com a burocracia, que elas acabam perdendo a capacidade de inventar e se tornam outros robôs.
  • É preciso não impedir o progresso, mas geri-lo de forma a criar uma felicidade mais difundida.
  • Por milhares de anos, a aristocracia social distinguia-se não pelo que fazia, mas pelo que não fazia. Quem pertencia à nobreza não devia trabalhar: para isso existiam os servos e empregados. Nós estamos atravessando uma passagem de época, da atividade física à atividade intelectual. Isto é, de um mundo explorado, bem conhecido, a um mundo do qual sabemos pouquíssimo.
  • Os etnólogos dizem que quando os peixinhos vermelhos, depois de passar meses num aquário, são liberados em pleno mar, continuam ainda por um certo tempo a nadar em círculos, como se estivessem dentro do aquário. Os seres humanos trabalham por duzentos anos dentro de uma fábrica ou dentro de um escritório e agem como se ainda estivessem ali, não saem nem mesmo quando a parede de vidro não existe mais.
  • Ociar não significa não pensar, Significa não pensar regras obrigatórias, não ser assediado pelo cronômetro, não obedecer aos percursos da racionalidade e todas aquelas coisas que Ford e Taylor tinham inventado para bitolar o trabalho executivo e torná-lo eficiente.
  • Foi uma cena do filme Beldades no Banho que surgiu a Crick e Watson a hipótese de que a hélice do DNA pudesse ser dupla. Se não gostassem de cinema, talvez tivessem levado muito mais tempo para descobrir a estrutura tão pesquisada. [...] As intuições surgem de exatamente de hibridizações de mundos diversos.
  • Todas as organizações que atualmente produzem bens de serviço e informação são filhas da velha indústria de manufaturas que durante duzentos anos administrou o exército de analfabetos que assumiram tarefas repetitivas. Agora se tenta fazer a mesma coisa com os diplomados e graduados.
  • Uma sociedade é democrática quando os governados podem escolher seus governantes. Mas as empresas, por definição, são hierárquicas, piramidais e autoritárias: seus chefes não são eleitos pela base, mas nomeados pelo topo.
  • As duas bases fundamentais que todas as pedagogias adotaram até o momento, no mundo industrial, foram a do trabalho como dever e uma ética utilitarista, como base para o comportamento. Sob esta ótica, Leão XIII, Taylor e Ford têm muito mais afinidades entre si do que se poderia supor à primeira vista.
  • Hoje, é claro que a necessidade de oferecer aos jovens uma formação ética permanece intacta, mas o princípio utilitarista de uma competitividade destrutiva deveria dar lugar a um princípio baseado na solidariedade de estímulos criativos.
  • Os burocratas têm medo da inovação, os criativos têm medo do imobilismo. As duas posições serão cada vez mais inconciliáveis. Mas vencerão os criativos, porque a sociedade pós-industrial se alimenta de invenções, não tem outra saída, premia a iniciativa e joga fora do mercado o imobilismo.
  • O engenheiro Taylor e o engenheiro Ford tinham como dependentes diretos esquadrões de operários analfabetos. Hoje, pelo contrário, graças à escolarização, o subalterno de um engenheiro é outro engenheiro, às vezes mais atualizado e ágil.
  • A forma piramidal das organizações sempre constituiu um incitamento a comportamentos ditados pela competição implacável, já que nos níveis superiores a oferta de cargos é sempre menor que nos inferiores: os que desejam subir devem acotovelar, passar rasteiras, armar ciladas para eliminar o adversário custe o que custar.
  • A sociedade pós-industrial, pelo contrário, é menos ligada à agressividade, porque sua estrutura tem a forma de uma rede, com um número potencialmente infinito de nós e malhas. A sua organização pode se expandir como um rizoma e as relações dela decorrentes são bem mais paritárias do que hierárquicas.
  • Simplificar significa separar artificialmente, em qualquer sistema, as estruturas das funções, sem levar em conta a recíproca interferência entre elas. Significa limitar-se a observar só a continuidade dos fluxos e a sequência das várias fases. Já acolher e apreciar a complexidade significa, ao contrário, aceitar o seu caráter mesclado, incongruente e descontínuo, valorizando todos esses elementos e considerando-os de um nível superior aos que eram utilizados durante o paradigma industrial.
  • A criatividade é, ao mesmo tempo, heteropoiese e autopoiese: isto significa que adquiro materiais dos outros (heteropoiese), mas os reelaboro dentro da minha mente até chegar a uma visão nova (autopoiese).
  • ... há uma tal interação contínua de ideias, linguagens, informações e experiências que já não é possível saber se uma ideia é nossa ou se a escutamos de alguém. Nós “cuidamos” das nossas ideias, as “produzimos” como se produz um filme ou espetáculo, mas nossas ideias não são um produto só da nossa mente, e portanto não são “nossas”.
  • ... a escolha de uma faculdade universitária que prepara para a vida é mais sábia do que a escolha de uma faculdade que prepara para a profissão. O que conta não é o estresse da carreira, mas a serenidade da sabedoria.
  • Em nenhum outro pais do mundo a sensualidade, a oralidade, a alegria e a “inclusividade” conseguem conviver numa síntese tão incandescente. ”Um povo mestiço, cordial, civilizado, pobre e sensível habita esta paisagem de sonho”, insiste Jorge Amado.
  • É este o lugar: é no Brasil, neste país tão puro e tão contaminado, que eu gostaria de alimentar o meu ócio criativo.

  • MASI, D. D. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

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