4 de nov de 2009

Trópicos tristes

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'Aulas de Lévi-Strauss eram um verdadeiro show', diz ex-aluno

José Ribamar Bessa Freire, da Uerj, teve aula com francês nos anos 80.
Segundo ele, auditório da Sorbonne ficava lotado em dia de palestra.
Coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, José Ribamar Bessa Freire foi aluno do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que teve sua morte anunciada nesta terça-feira (3), aos 100 anos de idade.

Bessa Freire acompanhou entre 1981 e 1982 as aulas de Lévi-Strauss, na Universidade de Sorbonne, na França. "Eram aulas muito concorridas, um verdadeiro show", diz. "Em um auditório onde cabiam cerca de 300 pessoas, tínhamos que sentar no chão."

"Os cursos de Lévi-Strauss eram concorridíssimos, além dos alunos que estavam matriculados, os outros professores também paravam suas aulas para assistir", diz Bessa Freire.

"Eu tinha aulas com o Maurice Godelier (antropólogo francês, ex-diretor da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais) e ele parava tudo o que estava fazendo para ir nas aulas de Lévi-Strauss."

Bessa Freire destaca a perda e lembra que segundo o próprio antropólogo, a etnografia brasileira estava entre as "melhores do mundo." Ele foi um pesquisador muito importante para o Brasil", afirma.

 FONTES:




"O cru e o cozido - Mitológicas 1", por Mariza Furquim Werneck (*) 
Dados do livro resenhado:
Título da obra: O cru e o cozido - Mitológicas 1
Nome do autor: Claude Lévi-Strauss
Editora: Cosac & Naify
Número de Páginas: 448
Mitológicas são um conjunto de quatro volumes que reúne a monumental análise estrutural de mitos ameríndios realizada por Claude Lévi-Strauss, ao longo de vinte anos. Durante esse período, Lévi-Strauss declara ter vivido como um monge, levantando-se ao raiar do dia, "embriagado de mitos", sentindo-se verdadeiramente em um outro mundo.
Os mitos passavam por sua cabeça, quase que à sua revelia, fazendo-o mergulhar em uma experiência estética extraordinária. Muitas vezes, sem compreender, convivia com determinado mito durante semanas ou meses até que, de forma misteriosa, o detalhe até então inexplicável de outro mito se reconhecia no primeiro, e as duas histórias se iluminavam, plenas de sentido.
A descrição desse método de trabalho, que pode ser aproximado das práticas da arte surrealista, e dos procedimentos inerentes à psicanálise freudiana, em nada exclui a precisão e o rigor científicos. Como se sabe, embora reconheça nas colagens de Max Ernst – seu companheiro de exílio em Nova Iorque durante a Segunda Guerra – e nas idéias de Freud uma inspiração permanente, foi na linguística de Roman Jakobson que Lévi-Strauss reconheceu o modelo de cientificidade mais adequado para pensar o mito.
O que resultou de tudo isso foi um dos maiores repertórios de mitos da contemporaneidade. Foram analisados nada menos do que 813 mitos e alguns milhares de variantes. Esse material constituía apenas uma pequena parte da pesquisa acumulada em suas fichas que, por sua grandeza, poderia gerar outras tantas Mitológicas.
O primeiro volume, O cru e o cozido, saiu na França em 1964. Seguiram-se Do mel às cinzas (1967), Origens das maneiras à mesa (1968) e O homem nu (1973).
A primeira edição brasileira de O cru e o cozido (1991) surgiu 27 anos depois da edição original, num extraordinário esforço de tradução de Beatriz Perrone-Moisés, professora do Departamento de Antropologia da USP. Por motivos editoriais, no entanto, a tradução da série foi interrompida, privando o público brasileiro dos volumes seguintes das Mitológicas.
Felizmente o projeto foi retomado, sob os mesmos cuidados de Beatriz Perrone-Moisés, que nos brinda agora com uma edição minuciosamente revista de O cru e o cozido, além da promessa de que, desta vez, o trabalho prosseguirá.
Para se avaliar a importância e o impacto causado pela análise estrutural dos mitos, basta ouvir o helenista Marcel Detienne, para quem falar em ciência do mito hoje em dia implica em fazer um caminho que vai dos gregos até Lévi-Strauss, mas, também inversamente, de Lévi-Strauss até os gregos.
A realização de uma empresa intelectual do vulto das Mitológicas significa, sem qualquer exagero, a descrição de uma gênese do pensamento. Isto porque, construindo sua obra sobre vasto campo epistemológico, Lévi-Strauss não buscou apenas compreender o mito, mas pôs-se a pensar como ele. Tentou, dessa forma, superar um dos maiores impasses enfrentados pelos mitólogos, pensadores do logos: pensar o mito exige, em primeiro lugar, que se saia dele.
Para atingir seu objetivo, criou um método rigoroso, por meio do qual tentou apreender as propriedades dos mitos — ou de fragmentos deles — não como categorias fixas, mas como resultado de um sistema de relações. Diferentemente das obras clássicas do gênero, os mitos são agrupados para revelar não o seu sentido, mas suas propriedades; postos em evidência para demonstrar ora uma lógica das qualidades sensíveis, ora uma lógica das formas.
Através de múltiplos procedimentos metodológicos, ora mimetizando as ciências (ancora-se na linguística, na botânica, na zoologia e na matemática, entre outras), ora as artes (registra dívidas importantes com a música, a literatura e as artes plásticas), Lévi-Strauss pretende fazer emergir as leis secretas que regem a manifestação do espírito humano e romper com a permanente dicotomia entre saber arcaico e moderno, entre pensamento mágico e científico, entre arte e ciência.
A organização dos capítulos também não segue a disposição tradicional. Elegendo a música como modelo de análise, posto que ela sempre estabeleceu uma via intermediária entre o exercício do pensamento lógico e a percepção estética, Lévi-Strauss adota, na exposição, a forma de uma peça musical. Os mitos tornam-se então ora uma Sinfonia breve, ora uma Fuga dos cinco sentidos, ora um Concerto de pássaros.
Lévi-Strauss inova também no que diz respeito à narração do mito propriamente dita, e à construção de sua cosmogonia. Com efeito, a ciência tradicional do mito costuma iniciar seus relatos a partir da narração de um princípio organizador, identificado no início dos tempos, ou seja, no próprio momento da eclosão do Universo: ultrapassado o caos primordial, anterior a toda criação, inaugura-se o cosmos. Esse princípio organizador pode ser assimilado a um sopro, a uma palavra, a um demiurgo.
Aos mitos de origem — que fazem parte do patrimônio simbólico de todos os povos — sucedem-se os que narram a aquisição das técnicas, da comida, da fabricação de artefatos, até desembocarem nos mitos escatológicos, que narram o final dos tempos.
À instauração da ordem seguem-se necessariamente períodos de desordem, que são inerentes a ela. Depois desses, em eterno retorno, anuncia-se o advento de uma nova era.
Dessa forma, guiadas pelo mesmo princípio ordenador presente nas cosmogonias, as narrativas míticas configuram-se como um corpus homogêneo, encadeado de forma ordenada e coerente, cuja maior expressão pode ser encontrada na obra de Mircea Eliade.
Tudo se passa como se os mitos se apresentassem aos seus coletores devidamente organizados, expressando uma totalidade indivisa. Não há evidências de qualquer elemento desordenado ou fragmentário, nem nos mitos, nem em sua forma de exposição.
Tentando superar esse impasse, Lévi-Strauss vai criar um método em tudo oposto às abordagens canônicas que o antecederam.
Sensível à forma fragmentária do mito, juntando cacos e ruínas de sua matéria essencial, o bricoleur Lévi-Strauss inicia sua narrativa a partir de um ponto qualquer, um mito de referência, ao qual dá o nome de "o desaninhador de pássaros".
Ponto de partida, mas também ponto de chegada, esse mito serve-lhe de fio condutor e, por meio de ampliações progressivas de seu campo de ação, que denomina "contaminações semânticas", percorre o universo mítico como um todo. Identificado nas Mitológicas como M1, foi inicialmente localizado por Lévi-Strauss em um canto bororo conhecido por xogobeu, pertencente ao clã paiowe.
O mito conta a história de um incesto cometido por um jovem índio com sua mãe. Ao descobrir a transgressão, o pai decide vingar-se e obriga o filho a realizar três missões impossíveis no "ninho das almas". Com a ajuda de uma avó feiticeira, que coloca a serviço de seu protegido os poderes do colibri, do juriti e do gafanhoto, o jovem consegue realizar com sucesso as exigências paternas.
Frustrado em sua vingança, o pai convida-o, então, a acompanhá-lo na captura de filhotes de arara cujos ninhos se encontram nas encostas dos rochedos. Munido de um bastão mágico — presente da avó — o desaninhador de pássaros consegue livrar-se de todos os perigos, metamorfoseando-se sucessivamente em lagartixa, em quatro tipos de pássaros e em borboleta.
Depois de muitas aventuras, regressa são e salvo à sua aldeia, onde é recebido pelo pai com o canto de saudação dos viajantes que retornam, como se nada tivesse acontecido.
Disposto a não conceder o perdão nem ao pai, nem aos companheiros que o maltrataram, o herói leva a avó para um país longínquo e belo, e volta para realizar sua vingança.
Em uma caçada, fazendo-se passar por um veado, utiliza-se de falsos chifres e investe contra o pai, perfurando-o e jogando-o em um lago, onde a vítima é devorada por peixes canibais. Somente seus pulmões são poupados, e afloram à tona, sob a forma de plantas aquáticas. Mata ainda todas as esposas do pai, inclusive a própria mãe, e, por fim, envia para sua aldeia o vento, o frio e a chuva.
A história não termina aqui. Ao longo dos quatro volumes da Mitológicas, Lévi-Strauss acompanha o desdobramento do tema e suas múltiplas variações. O mito se alarga, se distende, se deforma, se concentra, se exaure. Por ele é possível depreender, entre outras coisas, a toponímia da aldeia bororo, a origem da chuva, do frio, do vento, e das plantas aquáticas. E ainda a ligação, simbólica ou real, entre a imposição do uso do estojo peniano e a regulamentação das relações entre os sexos.
A partir desse mito referencial, mas não fundador, é que surgem todos os outros. Ao introduzi-lo, Lévi-Strauss denomina-o "ária do desaninhador de mitos". Peça musical composta para uma única voz, essa ária vai, progressivamente se ampliando e se modificando. Cumprindo a função, na cena mítica, de um leitmotiv, ressurge, em eterno retorno, a cada vez que sua presença é invocada, e se refaz, por mais que sua matéria mítica tenha sofrido sucessivas transformações.
A estratégia levistraussiana consiste em estabelecer diversos pontos de partida, mas nenhum de chegada, pois o mito jamais toma uma forma definitiva e, de cada um deles, sempre pode surgir um outro, indefinidamente.
Dessa forma, e ao longo de quatro volumes, Lévi-Strauss realiza, nas Mitológicas, um monumental esforço para tentar entender o que pode significar, para um homem desencantado, a experiência mítica.
Percorrer, junto com ele, essa terra mítica, ou, dizendo de outro modo, a mitosfera implica percorrer um conjunto magnífico de significantes que jamais atinge seu significado. Implica em aceitar o convite de uma reelaboração permanente do imaginário, e os limites de uma interpretação que permanecerá para sempre inconcluso.
 

(*) Mariza Furquim Werneck é Professora Doutora do Departamento de Antropologia da PUC-SP.

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